Política

# O roteirista do Brasil ficou maluco: de Vorcaro a Dark Horse, a crise chegou à PF

10 de set. de 2026

# O roteirista do Brasil ficou maluco: de Vorcaro a Dark Horse, a crise chegou à PF

Em menos de duas semanas, o caso envolvendo Daniel Vorcaro, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Flávio Dino, a Polícia Federal e o filme Dark Horse produziu afastamentos, reintegrações, decisões conflitantes, relatórios de inteligência, delação premiada e uma operação policial. E ainda faltam capítulos.

Se alguém entregasse esse roteiro a um produtor de Hollywood, provavelmente ouviria:

“Está exagerado. Ninguém vai acreditar.”

No Brasil, porém, basta esperar até quinta-feira.

Tudo começou com o celular de Daniel Vorcaro

A crise que agora envolve ministros do Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal e o filme Dark Horse ganhou velocidade depois que a PF analisou o celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

O material trouxe à tona conversas envolvendo pessoas próximas ao poder e informações relacionadas ao financiamento do filme que conta a trajetória de Jair Bolsonaro.

O nome mais importante nesse capítulo foi o de Flávio Bolsonaro que confirmou ter solicitado apoio na produção do longa ao banqueiro Daniel Vorcaro.

Mas havia muito mais coisa por trás.

1º de setembro: a caixa-preta começa a abrir

Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo do material relacionado ao celular de Vorcaro.

As mensagens vieram a público e provocaram uma reação em cadeia.

O caso, que inicialmente parecia concentrado na investigação financeira do Banco Master, passou a envolver também a relação entre Vorcaro e autoridades de Brasília.

E então surgiu um segundo problema:

o que a própria Polícia Federal estava fazendo nos bastidores?

Os misteriosos relatórios de inteligência

Mendonça descobriu que a estrutura de inteligência da PF havia produzido pelo menos seis relatórios sobre ele e sobre o advogado-geral da União, Jorge Messias.

Segundo a decisão do ministro, os documentos foram produzidos entre 3 e 31 de agosto.

Ou seja: por mais de um mês, um ministro do STF teria sido objeto de monitoramento pela inteligência da própria Polícia Federal.

Mendonça classificou a situação como extremamente grave e afirmou que se tratava de monitoramento ilícito de um ministro da Suprema Corte.

Também afirmou que o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, encaminhou o material em 1º de setembro.

O problema não terminava aí.

Os documentos, segundo Mendonça, apresentavam problemas técnicos graves: não tinham identificação adequada de autoria, data, origem e outros elementos exigidos pela doutrina de inteligência.

Em resumo:

havia relatórios sobre um ministro, mas os próprios relatórios tinham problemas para dizer quem os havia produzido.

É um pouco como encontrar um dossiê chamado:

“Relatório secreto sobre você”

e, na página seguinte, descobrir:

“Autor: talvez.”

E o conteúdo dos relatórios?

Segundo Mendonça, os documentos não se limitavam a informações objetivas.

Havia análises sobre decisões do STF, relações entre autoridades, posições políticas e até hipóteses sobre as motivações de decisões administrativas e judiciais.

Em um dos trechos destacados pelo ministro, o relatório fazia inferências sobre a relação entre Mendonça e o advogado-geral da União.

Também havia referências a processos sigilosos e a possíveis medidas investigativas futuras.

Para Mendonça, a divulgação desse tipo de informação poderia até comprometer investigações.

A questão passou a ser muito maior do que uma disputa entre ministros.

A pergunta passou a ser:

até onde pode ir a atividade de inteligência da Polícia Federal?

8 de setembro: Mendonça parte para cima

Na terça-feira, 8 de setembro, André Mendonça tomou a decisão mais contundente até então.

Determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada.

Também determinou a abertura de investigações criminal e administrativa.

E proibiu a produção e circulação de novos relatórios de inteligência destinados a analisar atos praticados no exercício das funções constitucionais do Judiciário, da Advocacia Pública e da polícia judiciária.

Mendonça justificou a medida dizendo que era necessário proteger a integridade das instituições, preservar investigações e impedir eventual interferência decorrente do uso das prerrogativas funcionais.

Curiosamente, para justificar o afastamento, o ministro citou precedentes do próprio STF, inclusive decisões de Alexandre de Moraes e Flávio Dino relacionadas a afastamentos cautelares de autoridades.

O roteiro começou a ganhar um certo senso de humor involuntário.

9 de setembro: Dino entra no palco

No dia seguinte, veio a resposta.

O ministro Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada.

Dino apontou problemas processuais na decisão de Mendonça e questionou, entre outros pontos, a legitimidade do Partido Novo para pedir o afastamento das autoridades.

Resultado:

Mendonça afasta.

Dino reintegra.

E os dois são ministros do mesmo Supremo Tribunal Federal.

A situação já parecia uma disputa de competência transformada em cabo de guerra institucional.

Mas ainda faltava alguém puxar o fio da tomada.

Fachin entra em campo

O presidente do STF, Edson Fachin, decidiu interromper a guerra de decisões.

Suspendeu tanto o afastamento determinado por Mendonça quanto a reintegração determinada por Dino.

Na prática, a situação anterior foi restaurada enquanto o STF decide o conflito.

Fachin classificou a sequência de decisões como uma espécie de "circularidade" processual e apontou risco de conflito e grave lesão à ordem pública.

Também retirou Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito das fake news e determinou que questões envolvendo investigações contra integrantes do STF passassem previamente pela Presidência da Corte.

Foi o equivalente institucional a alguém finalmente dizer:

“Parem. Todo mundo para a sala do diretor.”

A discussão deverá ser analisada pelo Plenário do STF em sessão extraordinária marcada para 15 de setembro.

E então chegou 10 de setembro

Se alguém achava que a quarta-feira tinha encerrado a crise, o Brasil resolveu provar o contrário.

Nesta quinta-feira, 10 de setembro, a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, autorizada por Flávio Dino.

Foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em quatro estados e no Distrito Federal.

Entre os alvos estão o deputado federal Mário Frias, produtor-executivo e roteirista de Dark Horse, e Karina Gama, produtora do filme e presidente do Instituto Conhecer Brasil.

A investigação apura suspeitas de desvios e irregularidades envolvendo recursos de emendas parlamentares.

Segundo a PF, haveria uma organização formada por agentes públicos e privados que teria direcionado recursos para empresas subcontratadas sem comprovação adequada da prestação dos serviços.

A investigação também identificou movimentações financeiras superiores a R$ 100 milhões entre empresas e pessoas relacionadas ao caso.

Mas há um detalhe importante: existem dois casos Dark Horse

É aqui que o roteiro começa a ficar realmente complicado.

O filme Dark Horse aparece em duas frentes de investigação diferentes.

Frente 1 — André Mendonça

Investiga os recursos relacionados a Daniel Vorcaro e o financiamento do filme.

Segundo as informações divulgadas na investigação, aproximadamente US$ 12,3 milhões teriam sido enviados para o financiamento da produção.

Os recursos teriam sido solicitados a Vorcaro por Flávio Bolsonaro.

Flávio nega irregularidades.

Frente 2 — Flávio Dino

Investiga o uso de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares destinados a entidades relacionadas à produção do filme.

É essa investigação que resultou na Operação Make Up.

Portanto, são investigações diferentes, embora tenham como ponto de encontro o mesmo filme.

Um filme.

Dois ministros.

Duas investigações.

E agora uma crise institucional no meio.

O roteirista realmente perdeu a mão.

Flávio Bolsonaro é alvo?

Aqui é preciso separar as coisas.

Flávio Bolsonaro não é alvo da Operação Make Up desta quinta-feira.

O senador aparece, entretanto, na outra frente de investigação, relacionada ao dinheiro de Daniel Vorcaro e ao financiamento de Dark Horse.

Portanto, dizer que a operação de Dino "teve Flávio Bolsonaro como alvo" seria impreciso, mas há suspeitas.

Mais correto é dizer que a investigação conduzida por Dino atinge o entorno da produção do filme e pode produzir informações relevantes para o contexto político de Flávio Bolsonaro.

É uma diferença importante.

E então acontece uma das maiores ironias do roteiro

Em dias anteriores à operação, Karina Gama registrou publicamente no cartório que estava sendo ameaçada e pressionada.

Segundo o relato da produtora, pessoas que se diziam influentes e com acesso ao Ministro Flávio Dino teriam ido à sua casa à noite para fazer perguntas.

Ela também afirmou que fornecedores e familiares teriam sido procurados.

Karina disse ainda ter sido procurada por um pastor evangélico de Brasília que, segundo sua versão, teria sugerido que ela fizesse um acordo de delação premiada.

A produtora respondeu que não teria o que delatar.

Segundo ela, sua participação foi exclusivamente na produção do filme e ela não teria participado da captação dos recursos.

Até aqui, trata-se de uma alegação da própria investigada.

Mas então aconteceu algo que nenhum roteirista precisaria inventar.

A PF encontra o documento

Durante a Operação Make Up, a Polícia Federal encontrou um documento em que Karina Gama havia registrado formalmente sua versão sobre as pressões que dizia estar sofrendo para fazer uma delação.

O documento havia sido registrado anteriormente no cartório.

Isso é relevante por causa da cronologia.

Não se trata de uma denúncia criada depois que a polícia entrou na casa dela.

O documento já existia antes da operação.

E agora foi encontrado justamente pelos investigadores que realizavam a busca.

É uma daquelas situações em que o roteiro parece escrever a própria piada.

A polícia foi buscar documentos sobre uma investigação.

E encontrou um documento no qual a investigada dizia estar sendo pressionada a colaborar com a investigação.

Quem teria procurado Karina?

Segundo o relato atribuído à produtora e publicado na Revista Veja desta quinta-feira, ela teria sido procurada por três pessoas:

  • Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney;
  • um pastor ligado, segundo ela, ao ministro Flávio Dino;
  • e um jornalista.

É importante destacar: essas informações representam a versão relatada por Karina e precisam ser investigadas e comprovadas pelas autoridades.

O registro em cartório, por si só, não prova que as pessoas citadas tenham praticado qualquer ameaça ou pressão.

Mas prova algo diferente:

Karina já havia formalizado aquela narrativa antes da operação.

E isso pode ter importância para a investigação da cronologia dos acontecimentos.

E as supostas gravações?

Aqui começa outra pergunta inevitável.

Se alguém acredita estar sendo pressionado para fazer uma delação e decide registrar imediatamente sua versão em cartório, é natural perguntar se também guardou mensagens, áudios, vídeos, ligações ou outros elementos que possam confirmar os contatos.

Mas isso ainda é uma questão em aberto.

Não é possível afirmar que existam gravações sem que elas sejam apresentadas ou confirmadas.

O que já existe é o documento formal encontrado pela própria PF.

E isso, por si só, já acrescenta uma peça nova ao quebra-cabeça.

O carro de R$ 102 mil em dinheiro vivo

Como se não bastasse todo o resto, a decisão de Flávio Dino que autorizou a operação também menciona a compra de um veículo híbrido pela produtora.

Segundo a investigação, Karina Gama teria comprado, em janeiro de 2025, um BYD Song Plus por R$ 102.190 pagos integralmente em dinheiro vivo.

A movimentação foi considerada relevante pelos investigadores.

Karina nega irregularidades.

Mais uma informação para o quebra-cabeça.

E há ainda a questão dos documentos supostamente alterados

A decisão de Dino também aponta indícios de que determinados documentos relacionados à investigação poderiam ter sido produzidos ou alterados posteriormente, com o objetivo de conferir aparência de regularidade a operações anteriores.

Auditorias da Controladoria-Geral da União teriam encontrado, entre outras inconsistências:

  • documentos apresentados somente depois de solicitações dos auditores;
  • metadados incompatíveis com as datas indicadas;
  • notas fiscais emitidas antes dos respectivos orçamentos;
  • contratos apresentados posteriormente para justificar despesas;
  • movimentações financeiras consideradas relevantes.

Essas suspeitas ainda serão objeto de investigação.

O que tudo isso tem a ver com a crise entre os ministros?

Muito.

Porque a história deixou de ser apenas:

Moraes × Mendonça.

Agora temos uma cadeia muito maior:

Vorcaro

Banco Master

mensagens

Moraes

Mendonça

relatórios de inteligência

Andrei Rodrigues

afastamento da PF

Flávio Dino

reintegração

Fachin

suspensão das duas decisões

Operação Make Up

Dark Horse

Flávio Bolsonaro

Karina Gama

supostas pressões por delação

documento registrado anteriormente

o documento é encontrado pela própria PF

E ainda estamos na primeira quinzena de setembro.

A questão realmente séria

Por trás de toda a ironia existe uma questão institucional muito maior.

A decisão de Mendonça afirma que a inteligência da Polícia Federal teria produzido relatórios sobre um ministro do Supremo e sobre o advogado-geral da União.

O ministro também questiona o uso de inteligência para analisar decisões judiciais, relações institucionais e aspectos políticos.

A própria decisão lembra que atividade de inteligência não se confunde com investigação criminal e exige procedimentos técnicos de coleta, análise, validação e difusão das informações.

A pergunta central, portanto, não deveria ser apenas:

“Quem está ganhando a briga?”

As perguntas realmente importantes são:

  • Quem produziu os relatórios?
  • Quem determinou sua produção?
  • Quem tinha conhecimento deles?
  • Qual era a finalidade?
  • Por que um ministro do STF teria sido monitorado?
  • Quem teve acesso às informações?
  • Houve desvio de finalidade?
  • Houve pressão sobre investigados?
  • Quem eventualmente praticou essa pressão?
  • E qual é a relação entre todas essas histórias?

São essas respostas que poderão determinar o tamanho real da crise.

O próximo capítulo

O STF terá de enfrentar o conflito entre as decisões de Mendonça e Dino.

A sessão plenária extraordinária está prevista para 15 de setembro.

Ao mesmo tempo, continuam andando as duas investigações envolvendo Dark Horse.

Uma apura a origem e o caminho dos recursos relacionados a Daniel Vorcaro.

Outra investiga possíveis irregularidades na utilização de recursos públicos e emendas parlamentares.

E agora existe uma terceira pergunta rondando o caso:

quem pressionou Karina Gama — se é que houve pressão — e por quê?

Se surgirem mensagens, gravações, testemunhas ou outros documentos capazes de confirmar ou desmentir sua versão, a história pode ganhar uma nova dimensão.

Em resumo

O caso que começou com a análise do celular de um banqueiro transformou-se numa crise envolvendo:

  • o Supremo Tribunal Federal;
  • a Polícia Federal;
  • a PGR;
  • ministros com posições divergentes;
  • o comando da PF;
  • o financiamento de um filme;
  • emendas parlamentares;
  • Daniel Vorcaro;
  • Flávio Bolsonaro;
  • Mário Frias;
  • Karina Gama;
  • supostas pressões por delação;
  • relatórios de inteligência;
  • e decisões judiciais conflitantes.

Tudo isso em poucos dias.

O Brasil conseguiu transformar um filme sobre política em uma investigação sobre dinheiro, uma investigação financeira em uma crise institucional e uma operação policial em mais um capítulo da própria crise.

Se isso fosse uma série, já seria hora de alguém perguntar:

“Quem aprovou tantas temporadas?”

Mas o mais preocupante é que ainda não chegamos ao final da temporada.

E, pelo ritmo dos acontecimentos, talvez seja melhor não apostar no próximo episódio.

O roteirista do Brasil realmente ficou maluco.

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