Política
De Vorcaro ao afastamento do diretor da PF: entenda a crise entre Moraes e Mendonça
08 de set. de 2026
De Vorcaro ao afastamento do diretor da PF: entenda a crise entre Moraes e Mendonça
Mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro deram início a uma sequência de acontecimentos que terminou, nesta terça-feira (8), com o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal por determinação de André Mendonça. Entenda o caso.
O começo: o celular de Daniel Vorcaro
A Polícia Federal analisou o celular de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Nas mensagens apareceram referências a autoridades, entre elas o ministro Alexandre de Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
O conteúdo passou a fazer parte das investigações relacionadas ao Banco Master.
É importante uma distinção: as mensagens mostram o que Vorcaro escreveu e pediu. Isso não significa, automaticamente, que os pedidos tenham sido atendidos pelas autoridades citadas.
A sequência dos acontecimentos
27 de agosto
A Polícia Federal encaminha a André Mendonça material produzido a partir da análise do celular de Daniel Vorcaro.
1º de setembro
Mendonça torna públicos documentos relacionados às mensagens de Vorcaro.
No mesmo período, Alexandre de Moraes determina o levantamento do sigilo de outros documentos produzidos pela Polícia Federal: relatórios de inteligência que faziam análises sobre a atuação do próprio Mendonça, do Advogado-Geral da União e de policiais federais.
2 de setembro
O Partido Novo pede a Mendonça providências para preservar as investigações e questiona a permanência de Andrei Rodrigues no comando da PF.
O pedido é baseado, entre outros elementos, nas mensagens encontradas no celular de Vorcaro.
3 de setembro
O Partido Novo apresenta novo pedido, desta vez pela prisão preventiva de Andrei Rodrigues.
No mesmo dia, Moraes divulga os chamados "relatórios de inteligência" utilizados para questionar a atuação de Mendonça.
É nesse ponto que o conflito muda de dimensão.
Mendonça passa a analisar não apenas o caso Vorcaro, mas a forma como a própria Polícia Federal produziu informações a seu respeito.
O que havia nos relatórios contra Mendonça?
Segundo a decisão de Mendonça, foram produzidos pelo menos seis relatórios de inteligência entre 3 e 31 de agosto.
O ministro afirma que os documentos apresentavam graves problemas técnicos.
Entre eles:
- não tinham identificação formal adequada;
- não apresentavam autoria e data de elaboração de maneira regular;
- eram classificados como "sem valor probatório";
- tinham, em determinado documento, "confiança agregada baixa";
- continham avaliações subjetivas sobre decisões judiciais;
- analisavam a atuação do próprio Mendonça;
- analisavam a atuação do Advogado-Geral da União;
- e faziam avaliações sobre policiais federais.
A decisão também afirma que os documentos realizavam o que chama de "monitoramento e coleta dirigida" sobre Mendonça e o AGU.
O ponto mais grave para Mendonça
Segundo a decisão, os relatórios não apenas foram produzidos dentro da estrutura de inteligência da PF.
Mendonça afirma que Alexandre de Moraes já tinha conhecimento da existência desses documentos antes de sua divulgação.
A decisão registra ainda que o material foi encaminhado por Andrei Rodrigues em 1º de setembro.
Para Mendonça, isso levanta uma questão central:
por que a inteligência da Polícia Federal estava produzindo relatórios sobre a atuação de um ministro do próprio Supremo?
A questão do "monitoramento"
Mendonça afirma que foi submetido a monitoramento sistemático pela inteligência da PF durante pelo menos um mês.
Segundo ele, os relatórios analisavam decisões judiciais, critérios utilizados pelo ministro e até suas relações institucionais.
Um dos documentos, por exemplo, tentava explicar por que o AGU teria tomado determinada decisão relacionando-a a uma suposta "relação política com o relator".
O próprio relatório, porém, classificava como baixa a confiança agregada da cadeia de informações utilizada para chegar às conclusões.
A decisão de Mendonça
Diante desse quadro, Mendonça concluiu que havia elementos suficientes para adotar medidas cautelares.
O ministro afirma que a permanência dos responsáveis pela estrutura de inteligência poderia permitir acesso a informações, sistemas e pessoas capazes de interferir nas investigações.
Por isso, determinou o afastamento preventivo de:
Andrei Augusto Passos Rodrigues
Diretor-geral da Polícia Federal
Leandro Almada da Costa
Diretor de Inteligência Policial da Polícia Federal
A decisão ressalta que o objetivo do afastamento é preventivo: preservar as investigações e impedir eventual interferência de quem ocupa cargos de alto poder dentro da PF.
E não foi só o afastamento
Mendonça determinou três medidas principais:
Afastamento preventivo de Andrei Rodrigues e Leandro Almada;
Abertura de investigações penais e administrativo-disciplinares pela Corregedoria da Polícia Federal;
Suspensão da produção, elaboração ou compartilhamento de relatórios de inteligência destinados a analisar atos praticados por magistrados, integrantes da advocacia pública e policiais no exercício de suas funções.
A investigação deverá tentar descobrir quem determinou a produção dos relatórios, quem os produziu, quando foram produzidos e se existem outros documentos semelhantes.
Por que isso é importante?
Porque o caso começou como uma investigação envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Depois, surgiram mensagens envolvendo autoridades.
Em seguida, apareceu uma investigação sobre a atuação de André Mendonça.
E agora a própria estrutura de inteligência da Polícia Federal está sendo investigada.
Ou seja, a discussão deixou de ser apenas sobre o Banco Master.
Passou a envolver a relação entre:
STF → Polícia Federal → PGR → investigações criminais → inteligência policial.
E agora?
A decisão de Mendonça foi assinada em 8 de setembro de 2026.
Ela determina a convocação de uma sessão virtual extraordinária da Segunda Turma do STF, para que a medida cautelar seja analisada e referendada ou não pelos demais ministros da Turma.
Portanto, o afastamento determinado por Mendonça é uma decisão cautelar e ainda será submetido à apreciação da Segunda Turma.
Em resumo
Para quem está acompanhando tudo isso e acha a história complicada, é possível resumir assim:
1. A PF encontrou mensagens de Daniel Vorcaro envolvendo autoridades.
2. O material chegou a André Mendonça.
3. Ao mesmo tempo, vieram a público relatórios de inteligência da PF que analisavam a atuação de Mendonça.
4. Mendonça questionou a legalidade e a própria finalidade desses relatórios.
5. O ministro afirmou que estava sendo monitorado pela inteligência da PF.
6. Também apontou que Alexandre de Moraes tinha conhecimento prévio da existência dos relatórios.
7. Mendonça concluiu que havia risco de interferência nas investigações.
8. Por isso, afastou preventivamente o diretor-geral da PF e o diretor de Inteligência.
9. Determinou ainda investigação para descobrir quem criou, autorizou e produziu os relatórios.
10. Agora, a Segunda Turma do STF terá de analisar a decisão.
Leia a decisão na íntegra
Documento oficial — PET 16.662/DF — decisão do ministro André Mendonça, de 8 de setembro de 2026.
Esta matéria distingue fatos registrados em documentos judiciais de acusações e hipóteses que ainda dependem de investigação e decisão judicial.
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